preloader

A acessibilidade sobre a ótica do empreendedorismo do futuro

Reflexões para um mundo mais consciente

É imperativo a necessidade de mudança em relação à construção de um mundo mais inclusivo através da iniciativa empreendedora com a finalidade de garantir os direitos a igualdade para pessoas com deficiência.Torna-se necessário cada vez mais, repensar sistemas, modelos de negócios, economias, políticas públicas e iniciativa privada através do uso de design e tecnologia, como forma de gerar impacto social a fim de criar soluções eficientes. A gestão da mudança, tem início através do financiamento de programas em redes e plataformas de acesso social, através de apoio governamental, estímulo fiscais no sentido de ampliar o incentivo a projetos que gerem o bem-estar coletivo.

Segundo relatório mundial sobre a deficiência publicado pela (OMS e Banco Mundial, 2011), há um forte interesse empresarial em remover as barreiras e promover funcionalidades, porém é necessário focar em fatores de atração para desmitificar o fato de que a acessibilidade é complexa, demonstrando assim, que a acessibilidade pode oferecer benefícios de mercado e esta é uma necessidade emergente, tendo em vista o envelhecimento da população.

Mas para entender essa premissa iremos abordar o contexto e verificar primeiramente que a Organização Mundial da Saúde – OMS, conceituou em 1980 a deficiência, como a perda ou anormalidade de estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica, temporária ou permanente. Este conceito foca fundamentalmente na incapacidade, no tocante as restrições que englobam o ato de desempenhar uma atividade considerada normal para um ser humano.

A deficiência gera incapacidade, que por sua vez gera desvantagem ou prejuízo para o indivíduo, criando barreiras e tornando-o mais vulnerável por suas limitações, impedindo-o de exercer sua capacidade individual de realização e habilidades de sobreviver. Em 1997 a OMS reapresentou o conceito com o título denominado de Classificação das incapacidades e da saúde – CIDDM-2, neste documento foram fixados princípios que levam em consideração o contexto socioambiental e as potencialidades, em vez da valorização das incapacidades e limitações, definindo assim o termo (pessoa portadora de deficiência).

Atualmente o termo oficial correto definido pela Convenção das Nações Unidas é PcD, Pessoa com Deficiência. A Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência das Nações Unidas (CDPD) trata a questão da deficiência como uma questão de direitos humanos. Tendo em vista o conceito de que PcD envolve desafios relacionados a interação e a execução de tarefas, na forma básica do instinto primitivo da sobrevivência humana, vale ressaltar que existem outros atributos relacionados a questões como habilidades que continuam intactas e que podem ser potencializadas e exploradas a partir do alinhamento com o conceito estabelecido pela ONU, que caracteriza a deficiência como o resultado entre a interação do indivíduo portador da deficiência e os obstáculos que impedem sua participação na sociedade.

Com isto, fica claro que existem outras questões importantes e que de certa forma, transcendem os aspectos fisiológicos e de caráter funcional. Podemos inserir aspectos subjetivos na perspectiva do exercício pleno da realização do indivíduo, independente do seu grau de incapacidade motora, um bom exemplo é a vida do cientista Stephen W Hawking, que sobrepujou seus limites e obteve uma carreira de destaque como astrofísico.

Neste exemplo, o professor não estava na periferia do seu contexto, mas protagonizando a mudança com base na eficiência das suas potencialidades. A maneira convencional de pensar acessibilidade, direciona esforços no sentido apenas de integrar e incluir a pessoa com deficiência em relação aos seus direitos básicos no convívio social, entretanto, isto é apenas uma parte da conquista já adquirida em relação aos direitos humanos e isto precisa ser executado. O indivíduo com PcD, enquanto for visto e considerado como um agente passivo, ou seja, no modo de sobrevivência, não terá a chance de reverter a lacuna da deficiência da própria sociedade, pois o abismo social continuará por motivos óbvios de natureza cultural.

Logo, quanto mais obstáculos ou barreiras físicas e condutas atitudinais da sua integração, mais deficiente torna-se esta pessoa. E isto coloca o deficiente em estado de vulnerabilidade não apenas no contexto da sua própria limitação, mas estende-se ao aspecto do amparo social, em relação ao cumprimento de leis, regulamentação trabalhista, normativa jurídica e aspectos culturais no qual está inserido. Vale ressaltar a Lei Federal no. 10.098/2000 que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade, além dos deveres que precisam ser cumpridos com o intuito de assegurar o direito de ir e vir das pessoas com deficiência.

Levando em consideração tais fatos, poderemos conceitualmente contrastar a maneira convencional de pensar a acessibilidade com uma nova maneira de inserir o PcD, tendo em vista a necessidade de desmitificar alguns aspectos de como podemos enfrentar o problema. Se utilizarmos o exemplo do IHC, na fase embrionária do desenvolvimento da relação interação homem/máquina, poderemos perceber que a inabilidade em relação à acessibilidade e usabilidade era gerada pela baixa capacidade técnica e por está focando nas deficiências do sistema, e isto proporcionava uma linguagem de baixo nível, não atendendo os anseios e requisitos humanos no que diz respeito ao design centrado no usuário.

Isto também, pode ser percebido de alguma forma no design industrial com a chegada da revolução industrial. Desta forma a questão da acessibilidade, precisa ser melhor explorada, através do surgimento das novas tecnologias, inteligência artificial, visão computacional, interfaces ubíquas, interação por voz, internet das coisas e tantas outras ferramentas que abrem a para que o PcD torne-se um agente ativo e realizador do código da mudança. Se imaginarmos a comunidade PcD reunida em rede, criando valor, com base na iniciativa de oportunidades por meio do empreendedorismo digital, atuando como um hub de mudança a partir da ótica de sua competências e sendo preservado no núcleo desta transformação como força realizadora, podemos imaginar que novas frentes de padronização e construção de novas percepções podem surgir a partir do uso recursos que podem beneficiar a todos.

Hoje os indivíduos com PcD, ficam deliberadamente na margem consultiva e isto não é suficiente, fase a lacuna que existe entre a realidade e a necessidade de milhões de pessoas. A Associação Indiana para Cegos de Nova Déli, é um exemplo de iniciativa não governamental que utilizou um programa inclusivo para garantir a disseminação da instrução e habilidades digitais, com baixo custo de acesso às TIC, com material de poio feito Braille, isto é apenas a ponta do iceberg, que precisa ser visto como a iniciativa empreendedora pode criar uma ruptura na maneira de criar tecnologias, com base em modelos de negócio que inserem a comunidade de pessoas com deficiência de forma integrada e com voz ativa.

A tecnologia precisa está aberta para que estes indivíduos estejam habilitados a intervir no sistema, gerando uma nova perspectiva a partir do design universal. O modelo vigente precisa remover as barreiras operacionais e permitir que a própria comunidade PcDs possam se articular e contribuir com a implementação de soluções colaborativamente. Se imaginarmos o impacto no contexto global, mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo convivem com alguma forma de deficiência e este número tende a aumentar com o envelhecimento da população.

Segundo dados do (IBGE), existem mais de 45 milhões de pessoas no Brasil com algum tipo de deficiência. Um estudo do Sebrae traça o perfil das pessoas com necessidades especiais, indicando que 38% das pessoas portadores de deficiência possuem faixa etária entre 30 a 39 anos, sendo 66% do público masculino e 48% com renda mensal familiar entre 1 a 5 salário/mensal. O estudo citado apresenta diretrizes e normas para adaptação de ambientes empresariais, com o intuito de promover acessibilidade tanto externa, quanto internamente. Este entendimento aponta a necessidade do cumprimento das exigências legais, assim como uma oportunidade de diferenciação competitiva. Desta forma, abrange tanto o atendimento de um público mais amplo, quanto o aprimoramento da cultura corporativa para inserir pessoas no seu quadro de funcionários.

Não existem muitos estudos relacionados a atividade econômica e empreendedora de pessoas com deficiência, uma matéria publicada na (FastCompany 2021), faz alusão ao impacto que as pessoas com deficiência sofrem no mercado de trabalho, segundo a matéria um milhão de trabalhadores americanos com deficiência perderam seus empregos entre março e agosto em 2020, atingindo uma taxa de desemprego de 12,3%. Isto demonstra a vulnerabilidade no qual este grupo de pessoas está inserido. Uma questão fica evidente, o quanto o design tem sido eficiente para mudar este panorama? Como a inovação e a tecnologia ultrapassam a esfera de acesso apenas quanto recurso, invés de tratar questões mais profundas como a latência da necessidade em promover oportunidades para aqueles que desejem empreender com o intuito de gerar maior impacto social em prol de um caminho mais promissor para estas pessoas.

Outra questão provocativa é como identificar oportunidades e gerar mais valor a partir da inserção de novas abordagens empresariais, assim como ampliar o conhecimento a respeito do uso de produtos e serviços para que haja maior participação de PcDs tanto na ponta da oferta de serviço, quanto na condição de consumidores que precisam de abordagens diferenciadas e de linguagem apropriada para atendimento e relacionamento. Questões como estas precisam encontrar possíveis cenários que apontem para o futuro e que possibilitem que iniciativas existentes ganhem maior notoriedade, a exemplo da plataforma PcD em foco, uma plataforma de recrutamento digital que conecta pessoas com deficiência as empresas que enxergam valor na inclusão.

A ideia visa criar um banco de talentos em uma rede de profissionais PcDs conectados por empreendedores com visão de futuro. O objetivo visa desmitificar o processo seletivo de pessoas portadoras de alguma deficiência, conectar pessoas em rede e compartilhamento de um programa de experiência. Outro exemplo é a liberação do uso da telemedicina pelo Ministério da Saúde como forma de acesso através da Telerreabilitação, que utiliza tecnologias de informação e comunicação a fim de aumentar a capacidade e acessibilidade por meio de intervenções remotas.

O uso de vídeo e teleconferências em formatos acessíveis e telemonitoramento. Alguns pontos são importantes como critérios de benefícios como economia de tempo, maior segurança, acesso a especialistas em regiões remotas. Este é um caso interessante que demonstra como empreendedores também podem identificar oportunidades de negócio. Basta citar o case da Hoo.Box Robotics que deseja se tornar uma empresa líder mundial no uso de tecnologia através do uso de reconhecimento facial para dar autonomia a cadeirantes. A empresa está em fase de aceleração e já firmou parcerias com o Hospital Albert Einstein e a Johnson & Johnson. Iniciativas como esta, traçam o objetivo de um plano de ações gerando impacto social através da inovação, gerando oportunidades para a comunidade e dinamizando a viabilidade econômica com base em estratégicas dos novos modelos de negócios.

Com base em tudo o que foi apresentado, fica evidente a necessidade de gerar inovação com base em valor através do impacto social por meio do empreendedorismo do futuro. Esta prerrogativa coloca a inclusão e a otimização das competências humanas como meio de fomento à igualdade e oportunidades. Apontar diretrizes em contexto conceitual é apenas a via que pavimenta a iniciativa empreendedora para que mais pessoas com mentalidade aberta, possam criar oportunidades por meio da tecnologia e design. Remover ou amenizar as barreiras que impedem o direito de igualdade é um dever moral de todos.

Não é mais possível ignorar que milhares de pessoas estão expostas de maneira mais contundente a falta de recursos como saúde, laser, emprego, educação entre tantos outros aspectos da vida, por terem seus direitos negados e consequentemente o seu potencial de agir e de viver com dignidade e realização. Pensando nisto e entendendo que grande parte da prosperidade de uma nação é fruto do acesso igualitário dos direitos e deveres de cada indivíduo, todos precisam ter acesso aos recursos e entendendo que a inclusão e a acessibilidade somente serão alcançadas por meio da conscientização, adaptação, colaboração através do comprometimento social e de iniciativas que almejem mudar o cenário e a realidade do mundo.

Referências

 

https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/44575/9788564047020_por.pdf?sequence=4

https://jus.com.br/artigos/19651/o-conceito-de-deficiencia-para-fins-do-beneficio-assistencial-do-artigo-203-inciso-v-da-constituicao-federal-de-1988

https://www.fastcompany.com/90603481/4-reasons-why-hiring-disabled-workers-is-good-for-business?partner=rss&utm_source=rss&utm_medium=feed&utm_campaign=rss+fastcompany&utm_content=rss?cid=search

https://vollenz.com/inovacao-e-inclusao-3-startups-que-melhoram-a-vida-das-pessoas-com-deficiencia

https://handbook.floeproject.org/approachesoverview

http://conteudo.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/UFs/MS/Anexos/Edi%C3%A7%C3%B5es%2008.2019/Cartilha%20Neg%C3%B3cios%20Acess%C3%ADveis.pdf

https://www.pcdemfoco.com.br/empresa/

http://www.agenciasebrae.com.br/sites/asn/uf/NA/empresa-facilita-insercao-de-pessoas-com-deficiencia-no-mercado-de-trabalho,75339c70bd8e9610VgnVCM1000004c00210aRCRD

Carlos Tomaz
Carlos Tomaz

Usamos cookies para lhe proporcionar a melhor experiência. Entendi? Mais informações